quarta-feira, 20 de novembro de 2013

De beduínos a cidadãos da pós-modernidade - uma viagem surreal.



Algumas anotações...






O que pode motivar uma pessoa para viajar ao país mais fechado do mundo? A um país onde turistas não são bem-vindos, a não ser aqueles do sexo masculino, muçulmanos, que viajam uma vez na vida para este país para fazer a peregrinação à Mekka e Medina?


Há três tipos de pessoas que basicamente viajam à Arábia Saudita: a negócios, imigrantes à procura de trabalho, muitos deles ilegais, e por motivos familiares, que foi o meu caso, pois filho e família vivem temporariamente na Arábia Saudita por conta de contrato de trabalho.


Para conseguir visto familiar, foi necessário que meu filho solicitasse ao governo saudita uma carta convite. De posse deste documento, uma série de documentos foram enviados à embaixada de Brasília, e começou o processo de solicitação de visto, o que foi um processo moroso, custou incontáveis telefonemas e demorou uma sequência de dias que foram se somando constituindo semanas. A aflição foi grande. Afinal, a passagem estava comprada, e nada do visto chegar. Mas, finalmente, a funcionária responsável pelo processo dignou-se a informar que a documentação estava correta e que poderia enviar meu passaporte. A partir daí, o processo foi rápido, e em pouquíssimos dias o visto estava na minha mão.
O horário do vôo é desumano. 5 horas da manhã. Mas o único vôo possível. A conexão é por Istambul. É possível fazer outras conexões, mas está é a com o preço mais acessível.


Quando cheguei em Istambul, isto de madrugada, o aeroporto estava lotado. Não havia um mísero lugar para sentar, e resolvi sentar num carrinho que transporta pessoas e objetos pra cá e pra lá. Ninguém me importunou. Consegui ficar sentada por um bom tempo, até ser anunciado o portão de entrada. Conforme orientação, fui vestir a abaya, que na Arábia Saudita é obrigatória para todas as mulheres, inclusive as estrangeiras. O kijab ficou no pescoço, a informação era que em princípio estrangeiras não precisariam usá-lo, a não ser que a polícia religiosa já na Arábia Saudita resolvesse encrencar.


Vestir a abaya foi esquisito. Suava às bicas, apesar dos 11 graus. Nunca, na minha vida, me submeti à situação de vestir algo que não escolhesse por vestir. Aquilo não combinava comigo. Comecei a andar pelos longos corredores até chegar ao portão de embarque correto, cruzei com muitas mulheres de abaya, todas elas completamente cobertas, algumas inclusive os olhos. Seria eu a única estrangeira?
Cheguei ao portão de embarque. Muitos homens, e muitos deles de túnica branca e turbante quadriculado vermelho e branco. Pouquíssimas mulheres, todas cobertas até a alma. Então vi três estrangeiras, uma de mini-saia, outra de leggin, a terceira de jeans, e sem abaya. Como assim? Depois descobri que a abaya poderia ser vestida no próprio avião. Elas, entretanto, somente vestiram um pouco antes de chegar à fila da polícia federal.


O vôo foi tranquilo. Muitos cheiros. Depois descobri que os homens se perfumam muito. As mulheres também. Devem usar litros de perfume. Os homens, um odor meio agridoce, muito forte. As mulheres um odor doce, muito doce e intenso. Inebriante. Nauseante. Provocou dor de cabeça.


Cheguei em Rhiyahd à 6 horas da manhã. O sol já brilhava intensamente, e estava calor. A chegada foi impactante. Descer do avião, seguir o fluxo de pessoas até chegar a um hall com uma imensidão de gente na fila. De todas as origens. Várias filas de homens que estavam aí para imigrar. Paquistaneses, filipinos, indianos, uma profusão de origens. Em comum, o mesmo aspecto de semi esfomeados, pareciam ratinhos à procura de comida, esperando pacientemente em infindáveis filas. Entrei numa fila onde havia pessoas de origem europeia. Comecei a esperar, pacientemente. O processo é demorado, moroso, a fila não anda. Guardas e funcionários do aeroporto, com olhares prá lá de agressivos, gritavam, comandavam, reorganizavam as filas. Me senti no meio de uma boiada. Respeito que é bom, nenhum. Educação, também não. De repente, abre um novo guichê e um guarda me chama. Que sorte. Passei à primeira da fila. Impressões digitais, checagem do passaporte, que interessou muito o funcionário que olhou pacientemente todas as páginas, e enfim liberação. Sem troca de uma palavra, e sem um olhar direto. Fui para a esteira de retirada da bagagem. Quebrada. De novo, gritos para tudo que é lado - como os sauditas, ou seja lá de que origem os funcionários são, gritam. Parece que vão digladiar-se por palavras. E a esteira aí, quieta, imóvel, impassível. Depois de meia hora, um funcionário resolve descer e pegar duas malas. Ficou nisso. Sorte de quem eram as malas. A espera continua. Os gritos também. Quando é que vão resolver esta situação? Espero pacientemente, assim como todos os outros passageiros. Finalmente, um funcionário toma uma atitude e dá a ordem de transferir a bagagem para a esteira do lado, que funciona. A partir daí, foi rápido. Minhas malas chegaram logo, e pude sair daquele inferno de cheiros e gritos. Do lado de fora, meu filho já me esperava. Alegria do reencontro. Saímos do aeroporto e atravessamos a cidade. Primeira impressão: misto de construções pequenas, cor ocre ou terracota, com prédios imponentes. As cores se misturam com a cor da terra, que é de um amarelado meio ocre. Areia batida, misturada com pedras. Tudo muito seco, inóspito. Grandes avenidas. Muitos carros. Carros grandes, em sua maioria. Em Rhiyahd não há um sistema de transporte público. Há vans circulando, e só. Carros são baratos, e o combustível é quase de graça. Afinal, a Arábia Saudita é o maior produtor de petróleo do mundo.













Passamos pela parte antiga de Rhiyahd, onde há um sítio arqueológico. Me senti transportada para um cenário bíblico.























Atravessamos a região, e finalmente chegamos no compound onde meu filho reside com a família, praticamente no deserto. A entrada é chocante. Dois controles, abrem o capô do carro, checam a parte de baixo com um espelho, e é necessário passar por uma infinidade de chicanas, antes de chegar no portão principal, onde há uma torre com polícia munida de metralhadora. Os muros que circundam o compound são imensos, filmadoras por tudo que é lado, e ainda arame farpado em rolo. Não deixa de ser um tipo de prisão...




O compound no qual meu filho e família residem é composto de 165 casas de 1,2 ou 3 quartos, para famílias cujos maridos trabalham na empresa na qual meu filho também trabalha. É um compound silencioso, há poucas crianças, praticamente não há pessoas circulando nas ruas. Os maridos saem para o trabalho de manhã, as mulheres ficam em casa. Há uma área de lazer muito boa, mas pouco utilizada. Alguns casais se visitam, festejam juntos os aniversários. As poucas crianças em idade escolar vão a escolas internacionais, e é o motorista do compound que as leva às escolas. Há motoristas a disposição das mulheres, e toda semana tem uma programação de saída, uma de manhã, uma à tarde, e entre ir e vir leva três horas. É possível, assim, que as mulheres vão ao supermercado, ao mercado, ao shopping. Basicamente é isto que é possível para a mulher fazer. Quando vai ao médico, pega um taxi de confiança, registrado no compound, e combina com o motorista o retorno. Mulheres podem circular sozinhas, mas nunca em companhia de homens que não sejam da família. Nunca as mulheres podem sair do compound sem estar devidamente vestidas com a abaya. Mulheres estrangeiras não tem autorização para trabalhar, a não ser que tenham autorização especial, para trabalhar, por exemplo, nas escolas internacionais. As mulheres procuram fazer amizades, se encontram em shoppings, ou nas residências de umas ou outras. A vida para as mulheres é solitária, encerradas em lindos compounds, cercadas por altos muros por todos os lados. No compound há um restaurante e um mercado. É possível enviar roupa para a lavanderia.


As casas são mobiliadas e confortáveis . Tem ar condicionado em todos os cômodos. Não há área de serviço. A máquina de lavar roupa fica na cozinha.















Em Rhiyahd há uma universidade para mulheres. As mulheres podem estudar, mas não podem dirigir carro. Recentemente foram liberados alguns trabalhos possíveis de serem realizados por mulheres, como por exemplo ser vendedora em loja de roupas íntimas.

A vida das pessoas é regida pelas rezas, que acontecem cinco vezes por dia, de 2,5 em 2,5 horas. Cada reza dura de 30 a 40 minutos. Durante as rezas, todas as lojas fecham. As pessoas que estão dentro das lojas tem que permanecer nelas, que estão com os portões fechados, até a reza terminar. Não há atendimento durante as rezas. Nem nos restaurantes. Você simplesmente fica esperando sentado até ser atendido novamente.

A Arábia Saudita existe como país há cerca de 80 anos. Antes disso, haviam grupos constituídos como os xiitas, sunitas e muitos outros grupos menores. O povo saudita é regido por um rei. A família real é sunita. Os xiitas e sunitas são os maiores grupos, e não se misturam. Antes de se tornar um país, as pessoas eram em boa parte beduínas. Em pouquíssimo tempo o povo teve que passar por um desenvolvimento intenso, de beduínos para a pós modernidade. Isto não se faz num piscar de olhos. A cultura antiga está muito enraizada, como por exemplo o isolamento das mulheres, o que se constata nas casas de família que,mesmo quando não pertencentes a um condomínio são protegidas por altos muros, apesar da violência ser reduzida. O casamento múltiplo também é praxe para sauditas abastados.


































Quando fomos a um brunch em um dos hotéis da cidade, encontramos com uma família tipicamente saudita abastada. O homem veio com a mãe, três esposas e oito filhos, dos quais 2 eram do sexo masculino, que na família saudita são tratados feito reizinhos. Harmoniosamente a família participou do brunch, as mulheres conversando entre si, as crianças divertindo-se. As meninas estavam vestidas com abaya mas sem véu, o menino mais velho com túnica branca mas sem cobertura de cabeça. As mulheres estavam com véu, mas sem o kijab que cobre o rosto. Era visível que várias delas já tinham feito plástica de nariz, que é um procedimento recorrente em famílias abastadas.
O fim de semana na Arábia Saudita inicia na sexta-feira, que é um dia santo. E sábado é sábado. O domingo é um dia normal de trabalho.

Nos fins de semana observam-se incontáveis famílias fazendo piquenique em espaços abertos, no deserto, em calçadas, em praças. As famílias reúnem-se, comem e bebem, ficam sentados em tapetes em torno de uma fogueirinha. E largam todo o lixo para trás, que no dia seguinte é recolhido pelos lixeiros, com exceção do deserto, que é salpicado de garrafas plásticas, plásticos diversos, restos de comida, outros lixos. E ninguém parece se incomodar.

Para os estrangeiros que trabalham por contrato em companhias estrangeiras, as mais diferentes embaixadas realizam grandes festas que sempre são muito esperadas. São festas pagas.
O custo de vida é alto na Arábia Saudita. Praticamente toda comida tem que ser importada , e é muito cara. Difícil achar verdura, legumes e frutas de boa qualidade. Há todo tipo de carne, menos o de porco, que é proibido. Mas a carne é cara.

O clima é extremamente seco. A água para consumo familiar e industrial é adquirida em sua maior parte pela dessanilização, mas também há fontes, e a água é misturada. Não é adequada para ser bebida. Chove muito pouco na Arábia Saudita. Mas eu tive a sorte de presenciar dois dias de chuva, que inundaram a cidade e inviabilizaram o tráfego em alguns bairros. É impressionante observar a inundação . A água sobe muito rápido, e não escoa. A areia é muito dura, não deixa a água penetrar.








Parti sob chuva forte. As malas foram levadas ao avião em carrinhos abertos, certamente molharam muito.

No compound fazia caminhada todos os dias. Uma hora pela manhã, outra pela tarde, sempre ao longo do imenso e longo muro, com. Inúmeras câmeras registrando cada um dos meus passos.

Tentei sentir a energia e o astral do lugar, não especificamente do compound, mas da área toda. Durante a semana toda senti o ar pesado, parecia comprimir a alma. Muito sensível, me senti um pouco atordoada. Deve ser a história deste lugar, palco de muitas lutas e lutas constantes, palco de terrorismo (a Arábia Saudita vive um período de calmaria). É um contra-senso. Há pouca violência, mas a violência espreita por todos os lados.






















Já viajei muitas vezes a desertos, e gosto muito. Sempre sinto uma quietude grande. Diferente foi desta vez. O deserto no entorno de Rhiyahd provocou, de certa forma inquietude, sentimento de insegurança , atordoamento, sensação de estar presa nesta imensidão, de vez em quando arrepios a perpassar o corpo...
Enfim..., foi uma experiência nova, diferente das já vividas.

Início do retorno ao Brasil. O horário do voo: 2:30 da madrugada. Meu filho me levou ao aeroporto, me acompanhou pelos trâmites, o que foi muito bom, pois mais uma vez, senti os funcionários agressivos. Longas filas, provavelmente de imigrantes ilegais, que estão sendo compelidos a abandonar o país. Em vez de malas, caixas de papelão, que provavelmente com a chuva que caiu devem ter sofrido um bocado. Finalmente conseguimos fazer o check in , e meu filho ainda me acompanhou até a polícia federal. Foi rápido, passei pela cabine só para mulheres para passar pela vistoria, e dirigi-me ao portão de embarque.

O voo até Istambul foi tenebroso. O avião tremelicava todo, parecia querer despedaçar em 1000 pedaços. Nunca presenciei tamanha turbulência. Foi uma noite e tanto.

Cheguei em Istambul às 6:30 da manhã e ainda estava escuro. Tomei café da manhã no aeroporto, andei um pouco pelo duty freeshop, procurei um lugar para sentar, o que neste aeroporto abarrotado de gente sempre é uma façanha. As três horas de espera passaram até que relativamente rápido, e fui a primeira a embarcar no vôo para São Paulo. O embarque foi rápido, mas esperamos quase uma hora na pista antes de decolar.
O avião lotado, algumas turbulências pelo caminho, mas nada que se aproxime do horror do vôo anterior. No vôo de Rhiyahd para Istambul, as pessoas mantiveram-se muito calmas. Por isso presumo que a agitação em pleno vôo seja algo que aconteça com frequência.


Pensando sobre os 12 dias na Arábia Saudita, chego à conclusão que o país ainda tem um longo trajeto pela frente para aproximar a pós modernidade a hábitos e cultura, a tradições seculares. Alguém da família real certa vez comentou que era preciso ir devagar na abertura do país ao mundo. O choque é muito grande, e as pessoas não suportariam ver suas tradições irem ‘areia’ abaixo. Certamente há tradições que precisam ser respeitadas e mantidas, outras necessitam de mudanças. A questão da mulher na Arábia Saudita, por exemplo, está profundamente arraigada na cultura saudita. Ainda é inimaginável o direito das mulheres de se locomover livremente, de escolher o que queiram vestir, de optar ou não por engravidar, de participar ativamente da sociedade saudita. Ainda é inimaginável que homens e mulheres se olhem, se comuniquem sem que isto seja visto como uma grave transgressão.
Para mim, mais do que a obrigatoriedade de usar a abaya foi difícil manter sempre os olhos baixos, não cruzar o olhar com representante do sexo masculino. O olhar dos homens é errante, não fixam o olhar. Eu por exemplo me senti como se não existisse, como se fosse transparente ou invisível. Difícil também foi a sensação de estar presa, de não poder sair do compound, por exemplo, para dar uma volta nos arredores.

Sem dúvida nenhuma, está foi a viagem mais impactante e surreal que já fiz e sou muito grata por ter tudo esta inusitada oportunidade de dar uma olhado há atrás do véu que cobre a Arábia Saudita.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Ilha do Pantanal - a maior ilha fluvial do mundo

A Ilha do Pantanal já estava há algum tempo na nossa lista de lugares no Brasil a conhecer. A primeira tentativa realizada por Ronald, de moto, foi em junho deste ano e não deu certo porque os rios estavam muito altos e não dava prá passar nem de moto, nem de carro. Decidimos, então, ir em outubro, pois a informação recebida foi a de que de agosto a outubro é período de estiagem, os rios estão baixos, possibilitando a passagem. A Ilha do Pantanal fica no Estado do Tocantins. Por um lado é margeado pelo rio Araguaia, e pelo outro pelo rio Javaés. São rios largos e que, em época de chuvas, contém muita água. Há outros rios menores que passam pela própria ilha, que é realmente muito grande. Onde fizemos a travessia a ilha tem uma largura de 100 quilômetros.
De São Paulo a São Félix do Araguaia, ponto de partida para a travessia, precisamos dois dias de viagem. A distância é grande, mas as estradas são boas, e conseguimos avançar rapidamente.






O tempo estava bom, somente pegamos chuva por cinco minutos no final do primeiro dia. Como o carro era confortável (Ranger 4x4), o cansaço foi bem administrado. Não parávamos para almoçar. Havíamos levado junto nozes diversas, biscoitos salgados, queijo parmesão e água, o que era suficiente para enganar o estômago, ganhar tempo e avançar quilômetros a fio. Parávamos somente para abastecer e ir ao banheiro.




A paisagem alternava basicamente entre grandes extensões de plantação de cana de açúcar, milho, terra arada e preparada para novo plantio e pastos e mais pastos. Principalmente em Goiás há muitos pastos, de imensa extensão. Pouco vimos de cerrado. Somente na beira de estrada, de vez em quando, via-se resquícios deste tipo de vegetação tão importante para o ecossistema e que, paulatinamente, foi dando espaço a grandes fazendas.
Jantávamos no início da noite, depois de termos nos instalado nos hotéis e pousadas, que sempre são muito simples e, com sorte, são limpas. Jantar simples, normalmente arroz, feijão, alguma carne ou peixe e salada. Normalmente bem temperada, saborosa, suficiente para dar conta da fome. No jantar tomávamos cerveja, sempre skol. O calor era sufocante, entre 33 e 38 graus. Surpreendentemente não nos deparamos com muitos insetos. Havia mosquitinhos, mas que não atrapalhavam. O que havia em profusão eram grilos. E como incomodam quando cantam sem parar... É o período de acasalamento dos grilos, e não há o que fazer... Ocupam praças e árvores durante dois a três meses, depois somem.











Para chegar a São Felix do Araguaia tivemos que rodar mais ou menos 300 quilômetros em estrada de terra, em péssimo estado de conservação - a BR 158. Nossa sorte foi não ter chovido durante o trajeto, do contrário certamente teríamos atolado. Cruzamos com incontáveis caminhões de grande porte, o que levantava uma poeira sem fim. Uma batida forte num buraco na estrada quebrou um parafuso da porta do carro. É só para se ter idéia do estado desta estrada. Perdemos a entrada para São Felix, o que nos fez andar 20 km a mais desnecessariamente por esta horrível estrada. Foi um alívio chegar a São Felix, apesar do escrachante calor de 38 graus.

Na avenida que margeia a orla, fomos a três hotéis. Não havia muito o que escolher. Fomos no menos pior, que pelo menos tinha espaço para tomar banho (em outro o chuveiro ficava praticamente por cima da pia) e um forro no teto. O colchão era razoável, e havia espaço para nossa bagagem. Além disso um absoluto luxo de um ar condicionado Split, que é menos barulhento.




São Felix do Araguaia é uma simpática e pequena cidade às margens do rio Araguaia. Sua gente é simpática e gentil. Qualquer informação que se queira ou se precise é dada com prazer. No dia em que estivemos em São Felix havia pouca gente, e nos explicaram que havia um evento em Formoso para onde  tinham ido o prefeito, os vereadores e moradores, para discutir a construção da continuidade da TO-500. A intenção é que atravesse a Ilha do Bananal, para viabilizar a passagem durante o ano inteiro, uma vez que só há balsa no rio Araguaia, com o preço proibitivo de 100 reais a travessia. Como a Ilha do Bananal é reserva indígena, acho complicado este intento  e duvido que os índios concordem com esta iniciativa. É esperar para ver o que acontece. Os índios cobram pedágio. Dependendo do índio que te recebe numa porteira com cadeado, entre 40 e 70 reais. Nós pagamos 40 reais.
A travessia pela Ilha do Bananal foi tranquila. Não há estrada. O que há são trilhas bem delineadas, o que permitiu que não nos perdêssemos neste ambiente de ilha. A paisagem muda várias vezes. Ora vegetação típica de cerrado, ora palmeiras, vegetação rasteira com muitos montinhos de terra que parecem brotar do chão (inicialmente pensamos tratar-se de tocos, mas depois vimos que eram montinhos de terra), alguma coisa de pasto com um gado bastante magro. Não vimos índios. Não vimos ocas. Nem sinal de tratamento da terra. Cruzamos com muitas camionetes. Eram os políticos retornando do evento. A trilha era tão estreita que um dos dois carros sempre tinha que sair da trilha para dar passagem ao outro.


A travessia levou três horas. Traspassamos vários rios no percurso. Foi um trajeto muito tranquilo, gostoso de se andar.






No retorno pegamos a BR 153, em bom estado de conservação, o que permitiu rápido avanço, e conseguimos chegar até Pirenópolis, no Estado de Goiás, não muito longe de Brasília.






Pirenópolis é uma simpática cidade colonial que data de 1727, e cujo foco principal é o turismo. No dia seguinte atravessamos o Parque Nacional dos Pirineus, e finalmente vimos o Cerrado de perto, em estado original.









De lá fomos a Caldas Novas, onde literalmente mergulhamos nas águas quentes para relaxar nossos combalidos músculos. E, no dia seguinte, direto para São Paulo.
Foi uma viagem do tipo vapt vupt. Viajamos 5 dias, e rodamos 3850 km. Conhecemos e apreciamos mais um pedacinho deste tão grande e diversificado Brasil.

Algumas dicas para quem for viajar para o interior do Brasil:

a) há necessidade de duas características: desprendimento e espírito de aventura. Não se sabe o que se vai encontrar pela frente. É necessário abdicar de luxo e conforto quando necessário, sem ficar reclamando;
b) se possível, viajar com um carro confortável, que tenha tração nas quatro rodas quando no trajeto houver estrada de terra. É claro que é possível viajar com carro pequeno, mas os riscos são maiores, e fica mais difícil viajar por muitas horas seguidas;
c) levar kit básico de limpeza e de higiene junto: álcool em gel, luva descartável, papel higiênico, rolo de toalha de papel, lenços umedecidos, etc. Assim que se sai do Estado de São Paulo os banheiros ficam deploráveis, muitas vezes em mau estado de conservação e sujos. Melhorou muito nos últimos anos, mas ainda em estado ruim. Os banheiros da rede BR via de regra estão em melhor estado de conservação e limpeza;
d) levar água  junto, apesar de que nos últimos anos se encontra água em todos os postos nos quais se para. Mesmo assim, seguro morreu de velho, e água no carro sempre é uma boa pedida;
e) levar mantimentos secos, do tipo biscoitos doces e salgados, nozes diversas, queijo parmesão, etc. Em trajetos muito longos, de cerca de 1000 km por dia é perda de tempo parar para almoçar. É melhor enganar o estômago, e jantar adequadamente à noite, no destino traçado para o dia. Frutas também são uma boa pedida, desde que sejam frutas que aguentem por algum tempo, como maçãs, por exemplo. Normalmente levamos faca, garfo, colher, tesoura em um recipiente de plástico, e também sacos de lixo para cada dia, a fim de colocar os resíduos neste saco e descartar em lixeira quando se chega ao destino.